Fotografo: Ueslei Marcelino / Reuters
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Apoiadores do candidato Carlos Mesa protestam em La Paz, na Bolívia

Edifícios incendiados, confrontos com a polícia e tumultos marcaram a noite de segunda-feira (21) na Bolívia, após a divulgação de resultados eleitorais do primeiro turno das eleições presidenciais que apontam a reeleição do atual presidente Evo Morales.
 
Em Sucre, capital constitucional, uma multidão incendiou o tribunal eleitoral local, enquanto confrontos com a polícia ocorriam em La Paz e Potosí e a sala de campanha do partido governante era saqueada em Oruro, relataram os jornais La Razón e Los Tiempos, assim como a agência de notícias AFP.
 
Após interromper a divulgação dos resultados na noite de domingo, quando os números indicavam que haveria um segundo turno, o Tribunal Supremo Eleitoral divulgou uma nova parcial do sistema de contagem rápida na noite desta segunda-feira, que colocava Morales na liderança, com 46,87% dos votos, enquanto Mesa aparecia com 36,73%, com 95,3% dos votos contados.
 
Para ser eleito em primeiro turno na Bolívia, é preciso ultrapassar os 50% dos votos ou obter ao menos 40% dos votos e uma diferença de 10 pontos percentuais em relação ao segundo candidato mais votado. Com a última parcial do órgão eleitoral, a diferença entre Morales e Mesa era de 10,14 pontos percentuais.
 
Após o Tribunal Supremo Eleitoral apontar Morales como vencedor em primeiro turno do pleito nacional, o principal adversário, Carlos Mesa, classificou a votação de fraude.
 
''Não vamos reconhecer esses resultados, que fazem parte de uma fraude vergonhosa que está colocando a sociedade boliviana em uma situação de tensão desnecessária", disse Mesa, em Santa Cruz.
 
Na noite de domingo, após o fim da votação, a divulgação dos resultados parciais foi inexplicavelmente interrompida na página na internet do órgão eleitoral - os dados da contagem rápida apontavam Morales na liderança (45,25%), seguido pelo centrista Mesa (38,16%), com quase 84% da apuração concluída. A parcial indicava, portanto, a realização de um segundo turno, algo inédito na Bolívia.
 
Contagens paralelas
 
Na Bolívia, dois sistemas de contagem de votos coexistem. Na contagem computadorizada, batizado de Transmissão de Resultados Eleitorais Preliminares (TREP), as atas - que trazem os totais de cada mesa - são fotografadas e enviadas ao órgão eleitoral por meio de uma aplicação que permite a publicação de resultados parciais.
 
E há ainda a "contagem oficial", mais lenta, na qual os votos são contados individualmente. Na segunda-feira de manhã, o governo anunciou que o modo de contagem rápida seria interrompido e que o resultado válido seria o do voto a voto. No entanto, no fim do dia, a TREP voltou a ser divulgada.
 
Na noite desta segunda-feira, a contagem oficial indicava um empate técnico, com 42,29% dos votos para Mesa, contra 42,04% de Morales, com 89,4% dos votos contados.
 
O ministro das Comunicações da Bolívia, Manuel Canelas, admitiu que o órgão eleitoral errou ao não deixar claro que havia duas contagens paralelas. "Uma vez que percebeu que a contagem dos votos estava dando outro resultado, [o órgão eleitoral] resolveu interromper a das atas, para não causar confusão, e não explicou direito", disse, citado pelo portal G1.
 
Na manhã desta segunda-feira, Mesa havia convocado jornalistas num hotel em La Paz e afirmou rejeitar a mudança de contagem porque esta seria uma "maneira de ganhar tempo enquanto constroem a fraude" e convocou partidários e simpatizantes às ruas, segundo reportagem da Folha de S.Paulo.
 
Observadores da Organização dos Estados Americanos (OEA), presentes na Bolívia nas eleições presidenciais de domingo, expressaram na segunda-feira a sua "preocupação" e "surpresa" face à inexplicável reviravolta eleitoral que praticamente dá a vitória a Evo Morales.
 
"A missão da OEA manifesta sua profunda inquietude e surpresa face à mudança radical e difícil de justificar, no que respeita à tendência dos resultados preliminares após o encerramento da votação", dizia um trecho num comunicado.