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Várzea Grande(MT), Sábado, 28 de Maio de 2022 - 17:16
19/03/2022 as 18:39:18 | Por CPB |
Permaneça o amor fraternal
“Seja constante o amor fraternal” (Hb 13:1)
Fotografo: CPB
Permaneça o amor fraternal

Lição 13
19 a 25 de março
 
Sábado à tarde
Ano Bíblico: Jz 13-16
 
VERSO PARA MEMORIZAR: “Seja constante o amor fraternal” (Hb 13:1).
 
LEITURAS DA SEMANA: Hb 13; Rm 12:13; Ef 5:3-5; 1Pe 5:1-4; Hb 2:9; 4:16; Gl 2:20
 
Hebreus 13 traz o último conselho do apóstolo Paulo: “Seja constante o amor fraternal” (Hb 13:1). Ele afirmou em toda a epístola que somos parte da família do Rei e Sumo Sacerdote, Jesus, e somos Seus irmãos e irmãs. O autor não considerava os leitores apenas como um grupo de indivíduos que trabalhavam pela própria salvação com base em um relacionamento individual com Jesus, mas como uma família, ou lar, sendo salvos na família da fé. Paulo caracterizou a obra de Jesus por nós como “amor fraternal”, pois Ele “não Se envergonha” de nos chamar de irmãos (Hb 2:11). Os crentes devem fazer uns pelos outros o que Jesus fez por eles.
 
Ao longo da carta, vemos que o amor fraternal envolvia animar uns aos outros para que ninguém ficasse afastado da graça de Deus (Hb 3:13; 10:24, 25; 12:15-17). No capítulo 13, o amor fraternal engloba vários elementos: ser hospitaleiro (Hb 13:2), visitar e apoiar os encarcerados e aqueles que foram maltratados (Hb 13:3), honrar o casamento (Hb 13:4), evitar a cobiça (Hb 13:5, 6), obedecer aos líderes da congregação (Hb 13:7-17) e orar pelo próprio autor da epístola (Hb 13:18, 19).

Domingo, 20 de março
Ano Bíblico: Jz 17-19
Cuidando do povo de Deus
 
1. Leia Hebreus 13:1, 2; Romanos 12:13; 1 Timóteo 3:2; Tito 1:8 e 1 Pedro 4:9. Qual foi o papel da hospitalidade na igreja primitiva?
 
O cristianismo foi um movimento peregrino que muitas vezes dependia da hospitalidade de cristãos e não cristãos. A instrução de não se esquecer de mostrar hospitalidade provavelmente não se refira apenas à falha em acolher alguém, mas à negligência intencional.
 
Paulo não tinha em mente a hospitalidade apenas para os irmãos na fé. Ele lembrou a seus leitores que, ao receberem estranhos, alguns sem querer receberam anjos (Hb 13:2). É provável que estivesse falando da visita dos três homens a Abraão e Sara (Gn 18:2-15). Oferecer hospitalidade implica compartilhar bens e sofrer com outras pessoas, que é o que Jesus fez por nós (Hb 2:10-18).
 
O apelo ao amor fraternal para com os encarcerados sugeria não apenas que os crentes se lembrassem dos prisioneiros em suas orações, mas também oferecessem alívio por meio de apoio material e emocional. Havia o risco da negligência intencional dos prisioneiros. Aqueles que davam apoio material e emocional aos condenados pela sociedade se identificavam com eles. Em certo sentido, se tornavam “coparticipantes” com eles e consequentemente vulneráveis ao abuso social (Hb 10:32-34).
 
A exortação de Paulo usa imagens e linguagem para encorajar os leitores a respeito dos prisioneiros. Primeiro, o autor relembrou o apoio que eles deram a seus irmãos encarcerados no passado. Eles se tornaram “coparticipantes” ou “parceiros” daqueles que foram “insultados e maltratados publicamente” (Hb 10:33, NTLH). Em segundo lugar, o termo “maltratados” ecoa o exemplo de Moisés, que escolheu “ser maltratado junto com o povo de Deus a usufruir prazeres transitórios do pecado” (Hb 11:25). Finalmente, Paulo captou o ideal do amor fraternal. Ele lembrou aos leitores que deviam tratar os outros como gostariam de ser tratados se estivessem nas mesmas circunstâncias; isto é, na prisão. Portanto, deviam dar suporte material e emocional aos presos, mostrando-lhes que não tinham sido abandonados.

Segunda-feira, 21 de março
Ano Bíblico: Jz 20, 21
Avareza e imoralidade sexual
 
2. Leia Hebreus 13:4, 5; Lucas 16:10-18; 1 Coríntios 5:1; Efésios 5:3-5 e Colossenses 3:5. Quais são os dois males relacionados nessas passagens?
 
Paulo advertiu seus leitores contra a imoralidade sexual e a avareza, visto que eram duas graves ameaças ao amor fraternal.
 
A admoestação de Paulo para honrar o casamento sugeria evitar qualquer coisa que pudesse menosprezá-lo, o que incluía abster-se tanto da violação do juramento matrimonial quanto de divórcios injustificados (Mt 19:9). A exortação para manter o leito conjugal imaculado refere-se a evitar a profanação do matrimônio por meio de relações sexuais fora dele. No NT a palavra “imorais” refere-se a pessoas que praticam formas de imoralidade sexual (1Co 5:9-11; 6:9, 10; Ef 5:5; 1Tm 1:9, 10; Ap 21:8; 22:15). A sociedade greco-romana era negligente em relação à ética sexual. Um duplo padrão era comum; os homens tinham liberdade em seus relacionamentos sexuais, desde que fossem discretos. Paulo avisou, no entanto, que Deus julgará os adúlteros. Os crentes não devem permitir que as convenções sociais estabeleçam seus padrões éticos.
 
O “amor ao dinheiro” era um dos principais vícios no mundo grecoromano. Em outra carta, Paulo se referiu a ele como a raiz de todos os males (1Tm 6:10). A luta contra esse vício é uma atitude que o apóstolo incentivou em várias epístolas. Primeiro, os cristãos deveriam “viver contentes” com o que tinham (2Co 9:8; Fp 4:11, 12). Além disso, deviam confiar na seguinte promessa divina: “De maneira alguma deixarei você, nunca jamais o abandonarei” (Hb 13:5). Essa promessa foi repetida várias vezes ao povo de Deus e está disponível para nós (Gn 28:15; Dt 31:6, 8; Js 1:5; 1Cr 28:20). Os crentes são convidados a responder a essa promessa com as palavras do Salmo 118:6: “O Senhor é o meu auxílio, não temerei. O que é que alguém pode me fazer?” Essa referência é apropriada, pois o salmista expressou ali sua confiança em Deus, apesar do sofrimento infligido a ele pelos incrédulos.

Terça-feira, 22 de março
Ano Bíblico: Rute
Lembrem-se dos seus líderes
 
3. Leia Hebreus 13:7-17. Qual deve ser nosso relacionamento com os nossos líderes?
 
Hebreus 13:7-17 contém a exortação de respeitar e obedecer aos líderes da congregação. Começa com um convite para “lembrar-se” dos líderes do passado que falaram a palavra de Deus a eles e termina com um chamado para obedecer aos líderes no presente (Hb 13:17). Os líderes do passado provavelmente sejam aqueles que primeiro pregaram a palavra e fundaram a congregação. Lembrar-se deles não se refere simplesmente a um exercício mental, nem a alguma homenagem. Paulo explica que devem considerar o resultado de sua conduta e imitar sua fé.
 
Para Paulo, o maior ato de lembrança e louvor é a imitação. Dessa forma, acrescentou os líderes fundadores da congregação à lista de heróis fiéis que os crentes devem considerar cuidadosamente. Essa lista inclui os heróis da fé de Hebreus 11 e Jesus, o exemplo consumado de fé, em Hebreus 12. O autor ainda observa que Jesus é “o mesmo ontem, hoje e para sempre” (Hb 13:8). Ele está em forte contraste com os falsos mestres que mudam com o tempo e cujas doutrinas se tornam “diferentes e estranhas” (Hb 13:9).
 
O convite para se lembrar dos líderes é reafirmado em termos mais vigorosos no final da seção. Os crentes são exortados a obedecer aos líderes, pois eles cuidam das pessoas. Os líderes são descritos como pastores responsáveis pelo bem-estar espiritual da congregação, seu rebanho, que prestarão contas a Deus por isso (ver também 1Pe 5:1-4; 1Co 3:10-15). Certamente, também, a ideia deve se aplicar a todos os nossos líderes de igreja, bem como a todos os níveis de administração da igreja hoje.
 
O contexto sugere que esses líderes são subpastores que servem sob a liderança de Jesus, “o grande Pastor das ovelhas” (Hb 13:20). A combinação de cuidado e fidelidade dos líderes e a obediência ou confiança dos membros resultará em alegria. Isso pode significar que os líderes serão capazes de servir à congregação com “alegria” ou que prestarão contas da congregação a Deus com alegria e não com pesar.

Quarta-feira, 23 de março
Ano Bíblico: 1Sm 1-3
Cuidado com doutrinas diferentes e estranhas
 
4. Leia Hebreus 13:9; 2:9; 4:16 e 6:19, 20. Onde se obtém a graça? Como nosso coração é fortalecido?
 
A relação entre falsos ensinos e alimentos, mencionada em Hebreus 13:9, provavelmente não se refira à distinção entre alimentos limpos e impuros. Por quê?
 
Primeiro, Paulo não parecia preocupado na epístola com a distinção entre alimentos limpos e impuros. Sabemos que a igreja cristã primitiva pregava a salvação pela graça (At 15:7-11) e que os crentes deveriam continuar a observar alguns regulamentos alimentares (At 15:19, 20). A distinção entre alimentos limpos e impuros e outros regulamentos bíblicos não se opõe à graça. Na verdade, Paulo argumentou que a nova aliança colocou a lei no coração (Hb 8:10-12). O que o autor deixa muito claro, no entanto, é que os sacrifícios de animais e a mediação sacerdotal levítica no santuário foram substituídos pelo sacrifício superior e pela mediação sacerdotal de Jesus (Hb 8:4, 5; 10:1-18).
 
Em segundo lugar, o contexto sugere que Paulo não estava criticando ninguém por se abster de certos alimentos, mas pelo fato de consumi-los com a esperança de obter graça de alguma forma (Hb 13:9). É provável que estivesse alertando contra a participação em rituais judaicos ou refeições que eram celebradas como uma extensão dos sacrifícios de animais no templo e que deveriam fornecer benefícios espirituais, ou graça. Mas a graça não é mediada por meio dessas refeições; a graça vem somente por meio do sacrifício e da mediação sacerdotal de Jesus Cristo. Os crentes têm um altar (Hb 13:10), a cruz de Cristo, da qual podem se alimentar (Jo 6:47-58).
 
Em Hebreus, “graça” vem do trono de Deus (Hb 4:16). Essa graça, mediada por Cristo, é a “âncora”, “segura e firme”, presa ao próprio trono de Deus (Hb 6:19, 20; compare com 4:16). Essa graça, que recebemos por meio do sacrifício de Cristo, dá estabilidade e segurança ao coração. Quando o coração é “confirmado” dessa forma, não será levado por novas doutrinas (Hb 13:9), nem se desviará da verdade de Deus (Hb 2:1).

Quinta-feira, 24 de março
Ano Bíblico: 1Sm 4-6
Indo a Cristo fora do acampamento
 
5. Compare Hebreus 13:10-14; Marcos 8:34; Mateus 10:38; Lucas 14:27 e Gálatas 2:20. O que significa ir a Jesus fora do acampamento?
 
O lugar fora do portão era o mais impuro do acampamento. Era ali que os cadáveres dos animais do sacrifício eram queimados (Lv 4:12), aonde os leprosos eram levados (Lv 13:46) e onde blasfemadores e outros criminosos eram executados (Lv 24:10-16, 23; 1Rs 21:13; At 7:58). Esses regulamentos pressupunham que a presença de Deus estava no acampamento. Qualquer coisa impura era lançada para fora porque Deus não queria ver nenhuma coisa “impura” ou “indecente” nele (Nm 5:3; Dt 23:14).
 
Jesus sofreu na cruz fora de Jerusalém (Jo 19:17-20), o que enfatiza a vergonha lançada sobre Ele (Hb 12:2). Ele foi condenado como alguém que blasfemou de Deus e, portanto, foi repudiado e executado fora da cidade (Mc 14:63, 64; Lv 24:11, 16). Foi lançado fora do acampamento como algo “vergonhoso”, “impuro” e “indecente”. Paulo, no entanto, exorta os crentes a seguir Jesus fora do portão e suportar a vergonha que Ele suportou (Hb 12:2; 13:13). Moisés escolheu esse caminho, sendo “desprezado por causa de Cristo” em vez de usufruir os tesouros do Egito (Hb 11:26).
 
Paradoxalmente, Hebreus sugere que a presença divina agora está fora do acampamento. Seguir Jesus fora do acampamento significa não apenas levar a mesma desonra ou vergonha, mas também ir ao Salvador (Hb 13:13), assim como os israelitas que buscavam o Senhor iam para “fora do arraial” no deserto, quando Moisés havia removido a tenda de Deus do acampamento após a controvérsia do bezerro de ouro (Êx 33:7). Esse relato sugere que a rejeição de Jesus pelos incrédulos também implicava a rejeição de Deus, como Israel fez em sua apostasia e adoração ao bezerro de ouro (Êx 32; 33). Assim, o caminho do sofrimento e da vergonha também é o caminho para Deus.
 
Paulo convida os leitores a seguir Jesus, “Autor e Consumador” da fé (Hb 12:2), implicitamente convidando-os a considerar seus sofrimentos uma disciplina momentânea que produzirá o fruto pacífico da justiça (Hb 12:11). Desse modo, deixam para trás uma cidade ou acampamento corrompido em busca da “que há de vir”, cujo Arquiteto é Deus (Hb 13:14; 11:10, 16).

Sexta-feira, 25 de março
Ano Bíblico: 1Sm 7-10
Estudo adicional
 
“Depois da vinda do Espírito Santo, [...] os crentes se rejubilavam na graça da comunhão com os santos. Eram amorosos, prestativos, abnegados e voluntários em fazer qualquer sacrifício pelo amor à verdade. Em seu contato diário entre si, revelavam aquele amor que Cristo lhes havia ordenado. Por palavras e obras de altruísmo, procuravam fazer nascer esse amor em outros corações. [...]
 
“No entanto, pouco a pouco, houve uma mudança. Os crentes começaram a olhar os defeitos uns dos outros. Concentrando-se nos erros e dando lugar a severas críticas, perderam de vista o Salvador e Seu amor. Tornaram- se mais estritos na observância de cerimônias exteriores e mais rigorosos na teoria do que na prática da fé. Em seu zelo para condenar os outros, passavam por alto os próprios erros. Perderam o amor fraternal que Cristo havia ordenado que tivessem; e, o que é mais triste, não tinham consciência dessa perda. Não reconheceram que a felicidade e a alegria estavam abandonando sua vida e que, tendo excluído o amor de Deus do coração, em breve passariam a andar em trevas.
 
“Percebendo que o amor fraternal estava diminuindo na igreja, João insistiu com os crentes sobre a constante necessidade desse amor. [...]. Ele escreveu: ‘Amados, amemo-nos uns aos outros, porque o amor procede de Deus; e todo aquele que ama é nascido de Deus e conhece a Deus. Aquele que não ama não conhece a Deus, pois Deus é amor. [...]’” (1Jo 4:7-11; Ellen G. White, Atos dos Apóstolos, p. 547, 548).
 
Perguntas para consideração
 
1. Embora a vida cristã envolva o relacionamento individual com Jesus, por que é importante lembrar que Deus nos lidera como um grupo? Quais são nossas responsabilidades para com o grupo? O que podemos esperar do grupo?
 
2. Quais são os melhores indicadores de que o amor fraternal é forte na congregação?
 
3. O que é o amor fraternal? Quais são suas características, causas e resultados?
 
Respostas e atividades da semana: 1. Visto que o cristianismo primitivo era peregrino, a hospitalidade era essencial na época. 2. Amor ao dinheiro e imoralidade sexual. 3. Devemos considerar sua conduta, imitar sua fé e obedecer- lhes. 4. A graça vem do trono de Deus, mediada por Cristo. Nosso coração é fortalecido pela fé no sacrifício de Jesus e no Seu amor por nós. 5. Ser coparticipante das ofensas e dos maus-tratos que Cristo sofreu e buscar a Deus em arrependimento e humildade.
 
Resumo da Lição 13
Permaneça o amor fraternal
TEXTOS-CHAVES: Hb 13; Rm 12:13; Ef 5:3-5; 1Pe 5:1-4; Hb 2:9; 4:16; Gl 2:20
 
ESBOÇO
 
Temas da lição
 
Paulo concluiu sua carta com várias admoestações para seu público: “Seja constante o amor fraternal” (Hb 13:1), “Não se esqueçam da hospitalidade” (Hb 13:2) e “Lembrem-se dos presos” e “dos que sofrem maus-tratos” (Hb 13:3). Além disso, ele aconselhou sobre outros assuntos: “Digno de honra entre todos seja o matrimônio” (Hb 13:4), “Que a vida de vocês seja isenta de avareza” (Hb 13:5), “Obedeçam aos seus líderes e sejam submissos a eles” (Hb 13:17) e “Orem por nós” (Hb 13:18). Ao longo da carta, o apóstolo repetidamente exortou os hebreus: “animem uns aos outros todos os dias” (Hb 3:13), “Cuidemos também de nos animar uns aos outros no amor e na prática de boas obras. Não deixemos de nos congregar” (Hb 10:24, 25), “Cuidem para que ninguém fique afastado da graça de Deus, e que nenhuma raiz de amargura, brotando, cause perturbação, e, por meio dela, muitos sejam contaminados” (Hb 12:15). A epístola, como um todo, é uma “palavra de exortação” (Hb 13:22).
 
Embora Paulo incentivasse seu público a praticar o amor mútuo, ele não esperava somente o sentimento, mas os exortou a ações específicas, como mostrar hospitalidade, compartilhar do sofrimento dos que estão presos, praticar a fidelidade no casamento e evitar a ganância. Da mesma forma, quando exortou seu público a se lembrar de seus líderes, não falava de mera contemplação. Em vez disso, desejava que, ao mostrar sua fidelidade a Deus, eles se submetessem, respeitassem e obedecessem aos líderes. Finalmente, Paulo advertiu sua audiência a não seguir ensinamentos estranhos, mas ao Mestre, Cristo.
 
Ensinamentos e alimentos estranhos
 
Em Hebreus 13:9, Paulo advertiu sua audiência: “Não se deixem levar por doutrinas diferentes e estranhas, porque o que vale é ter o coração confirmado com graça e não com alimentos, que nunca trouxeram proveito aos que se preocupam com isso.” Esse verso constitui um dos textos mais difíceis do livro de Hebreus. O que o torna difícil é a vaga referência ao seu contexto histórico. Como não podemos apontar exatamente a situação precisa em que todo o discurso foi transmitido, devemos evitar tirar conclusões muito decisivas.
 
O verso anterior ao citado acima diz: “Jesus Cristo é o mesmo ontem, hoje e para sempre” (Hb 13:8). Em contraste com a constância de Cristo está a admoestação para não se deixar levar por todos os tipos de ensinamentos estranhos. Os dizeres “não se deixem levar” (Hb 13:9) evocam imagens de vento e água, que arrastam as coisas. O uso dessa figura lembra a metáfora náutica usada por Paulo em Hebreus 2:1: “para que não nos desviemos”, ou não fiquemos à deriva. Ali, Paulo fez questão de alertar seu público a prestar atenção ao que ouviam daqueles que testemunhavam de Cristo. Naquela época, o público corria o risco de se afastar do Senhor. Paulo lembrou à sua audiência daqueles grandes mestres e líderes e pediu que imitassem sua fé (Hb 13:7). Enquanto os líderes vêm e vão, Cristo é constante. Entretanto, erros espirituais sempre existiram. Por isso, o público corria o risco de ser levado por doutrinas que pareciam estar em oposição ao que ouviram de seus mestres e líderes e são descritas por dois adjetivos: “diferentes e estranhas” (Hb 13:9).
 
Paulo diz à sua audiência que o coração é fortalecido pela graça, não pela comida. A antítese entre alimento (um símbolo do que é temporal) e graça (um símbolo do que é eterno) é empregada com frequência pelos escritores da Bíblia para mostrar a diferença entre esta existência temporária e algo muito melhor. Paulo, por exemplo, afirmou: “O reino de Deus não é comida nem bebida, mas justiça, paz e alegria no Espírito Santo” (Rm 14:17). Da mesma forma, ele admoestou os cristãos em Corinto: “Não é a comida que nos torna agradáveis a Deus, pois nada perderemos, se não comermos, e nada ganharemos, se comermos” (1Co 8:8). Na verdade, o alimento muitas vezes trouxe divisão na igreja primitiva (Rm 14:1-3), assim como no presente.
 
Qual é o problema específico que Paulo abordou em Romanos 14:1-3? Alguns estudiosos afirmam que os membros da comunidade de fé na igreja de Roma defendiam o consumo de carne oferecida a ídolos, algo semelhante ao problema enfrentado pela igreja em Corinto (1Co 8 e 10). A comparação entre Hebreus e 1 Coríntios mostra claramente que Paulo usou uma linguagem muito mais contundente a respeito do alimento oferecido aos ídolos (1Co 8:12) do que em Hebreus (“o que vale é ter o coração confirmado com graça e não com alimentos” [Hb 13:9]). Portanto, muito provavelmente, a questão em Hebreus não seja alimento oferecido a ídolos.
 
Outra opção mais provável, que inspirou o alerta em Hebreus 13:9, seria uma refeição de culto. O que há em favor dessa ideia? Consideremos três possibilidades escriturísticas. Em primeiro lugar, o contexto imediato parece aludir ao consumo de alimentos ligados às refeições sacrificais judaicas. Paulo declarou: “Temos um altar do qual os que ministram no tabernáculo não têm o direito de comer” (Hb 13:10). Aqui, Paulo estava fazendo uma alusão aos sacerdotes do AT que comiam das ofertas sacrificais no tabernáculo.
 
Em segundo lugar, a mesma palavra “alimento” é usada em Hebreus 9:9, 10, onde lemos: “Isso é uma parábola para a época presente, na qual se oferecem dons e sacrifícios” que “não passam de ordenanças da carne, baseadas somente em comidas, bebidas e diversas cerimônias de purificação, impostas até o tempo oportuno de reforma.” Paulo enfatizou o mesmo ponto de Hebreus 13:9, em que os sacrifícios cerimoniais não podem aperfeiçoar a consciência; em vez disso, tratam de comida e bebida e várias purificações cerimoniais. Essa é a razão pela qual o público não devia seguir ensinamentos estranhos, pois essas refeições cerimoniais de sacrifício eram inúteis até mesmo para aqueles que as praticavam (literalmente, andavam nelas). Os cristãos participam de um sacrifício muito superior a qualquer refeição sacrifical (compare com Hb 13:10-12).
 
Terceiro, o termo grego “alimento” (na Septuaginta, a tradução do AT em grego) é usado em Malaquias 1:7, 12 em referência a alimentos sacrificais no altar. Os sacerdotes ofereciam alimento impuro, definidos como animais cegos, coxos ou doentes em sacrifício (Ml 1:7, 8). Em suma, todas as três razões – o contexto imediato, o contexto mais amplo e o contexto do AT – parecem apontar para o fato de que os ensinos estranhos sobre comida têm relação com as refeições do culto judaico.
 
Obedeça e submeta-se aos seus líderes
 
Em sistemas políticos democráticos ou em um sistema democrático deficiente da igreja, uma exortação para obedecer e se submeter aos líderes soa um tanto autoritária. Uma reivindicação como essa deveria ser feita no presente? Em caso afirmativo, como devemos, sendo membros de uma igreja mundial, reagir a isso?
 
Como outras igrejas cristãs, a congregação à qual a carta aos hebreus foi dirigida tinha alguma forma de liderança. Os líderes foram mencionados três vezes (Hb 13:7, 17, 24). No verso 7, eles são mencionados como aqueles que “pregaram a palavra de Deus” à comunidade (Hb 13:7). Esses indivíduos provavelmente fossem os evangelistas missionários de Hebreus 2:3. Por causa de sua pregação e ensino, o público foi confrontado com “a palavra de Deus” “viva e eficaz, e mais cortante do que qualquer espada de dois gumes” (Hb 4:12).
 
Três verbos chamam a atenção para esses líderes: “lembrar”, “considerar” e “imitar” (Hb 13:7). Como a carta indica, Paulo apresentou ao seu público exemplos negativos a evitar (Hb 4:11) e exemplos positivos a imitar (Hb 11:4-38). O público deveria considerar o resultado do modo de vida deles. Essa contemplação indicava que os objetivos dos líderes foram alcançados e seu serviço concluído. Assim, o público podia rever o curso de seus líderes do início ao fim e imitar sua conduta fiel.
 
Mais adiante no capítulo, os líderes parecem ser indivíduos que estavam vivos e ativos na ocasião em que o sermão foi transmitido: “Obedeçam aos seus líderes e sejam submissos a eles, pois zelam pela alma de vocês, como quem deve prestar contas. Que eles possam fazer isto com alegria e não gemendo; do contrário, isso não trará proveito nenhum para vocês” (Hb 13:17). A autoridade dos líderes residia em cumprir fielmente sua função, pois zelavam pela alma dos fiéis (Hb 13:17).
 
Quando os líderes assumem sua responsabilidade com seriedade, evitam que seus membros sejam levados por todo tipo de ensinamentos estranhos e pelo consumo de alimentos que não beneficiam nem mesmo aqueles que os ingerem. Ao mesmo tempo, bons líderes estão cientes de que liderar exige responsabilidade, como ficou claro na reprovação ao administrador da parábola de Jesus (Lc 16:2).
 
Por fim, Paulo exortou seus ouvintes a obedecer e se submeter a seus líderes espirituais para que o dever deles fosse cumprido com alegria e não com lamento. A ideia de alegria lembra o modo pelo qual os ouvintes encararam o saque de seus bens (Hb 10:34). Essa alegria é a própria razão pela qual Jesus suportou a cruz e desconsiderou seu opróbrio (Hb 12:2) e a consequência da disciplina aplicada pelo Pai celestial (Hb 12:11). O trabalho dos líderes se torna alegre quando seus membros se submetem a eles e lhes obedecem. Quando não é esse o caso, o trabalho se torna árduo. De acordo com Paulo, sob tais condições, os líderes gemem, e os membros não colhem nenhum benefício. Portanto, uma colaboração bem-sucedida entre líderes e membros requer confiança e altruísmo.
 
APLICAÇÃO PARA A VIDA
 
Se a liderança da igreja sofreu abusos no passado em diferentes circunstâncias, ou sofre em partes do mundo em que os regimes políticos são mais autocráticos, como é possível encontrar a harmonia entre líderes e membros mencionada em Hebreus?
 
1. Por que existe tanta aversão à autoridade na cultura de hoje?
 
2. A liderança deve ser seguida somente se a pessoa concordar com o líder? Explique.
 
3. Quais critérios Paulo nos deu em Hebreus 13 para seguir os líderes?
 
A última chance de Deus
 
Charmaine Ku, 38
 
Nos dois últimos sábados, ouvimos sobre como Deus ajudou Charmaine a aprender a honrar a mãe. Hoje, ouviremos como ela entregou o coração a Jesus.
 
Desafiei a Deus com uma oração cheia de ousadia.
 
“Querido Deus, estou Lhe dando a última chance. “Frequentei muitos eventos da igreja, mas nenhum transformou minha vida. Continuo pecando, portanto, qual o objetivo? Não é melhor ficar caído que levantar e tentar voltar a Ti repetidamente? Tenho duas semanas de férias e só queria ficar longe de casa. Portanto, irei para uma escola de treinamento bíblico. Senhor, essa é Sua última chance. Se isso não funcionar, prometo que vai me perder para sempre!”
 
Eu nasci em uma família adventista na Malásia. Frequentei a igreja e participei dos cultos desde a infância. Mas não sentia alegria nas coisas espirituais. Namorei com um homem não cristão durante oito anos e gostava de meu emprego bem remunerado como professora de música em uma escola internacional. Mas, faltava-me paz, por isso orei e participei de uma escola bíblica organizada pela igreja.
 
Passamos duas semanas estudando sobre o santuário. Eu não conhecia muito sobre o assunto. Não costumava ler a Bíblia e ia à igreja somente por costume. Os membros da igreja me falavam como agir como adventista, mas eu não tinha um relacionamento pessoal com Deus.
 
Durante a escola bíblica, li em Ezequiel 37:4-5, que diz: “Então ele me disse: “Profetize a esses ossos e diga-lhes: ‘Ossos secos, ouçam a palavra do Senhor! Assim diz o Soberano Senhor a estes ossos: Farei um espírito entrar em vocês, e vocês terão vida’” (NVI). A visão de ossos secos me ensinou que o verdadeiro reavivamento vem somente por ouvir a Palavra de Deus e sentir a presença do Seu Santo Espirito. Eu precisava de uma conexão direta e pessoal com Deus, acompanhada de uma vida de oração e constante direção do Espirito Santo.
 
Ao estudar sobre o santuário, aprendi sobre o amor sacrificial divino. Aprendi que Ele tem o poder de perdoar todos os meus pecados e que Seu mais profundo desejo é viver comigo para sempre. O amor de Deus preencheu todo o vazio e fragilidade na vida. Entreguei meu coração a Jesus e Ele começou a trabalhar fortemente em minha vida.
 
Então, voltei a lecionar aos meus alunos de cinco a seis anos de idade. Era esperado que eu incorporasse comemorações mundanas envolvendo Papai Noel, duendes, fadas e bruxas às aulas de música. Certo dia eu apresentei uma aula sobre sons às crianças. Elas precisavam relacionar os sons que tocava com as ilustrações de um relógio de um avô, morcego batendo asas e esqueletos chocalhando em um castelo abandonado.
 
Para minha surpresa, os dois melhores amigos, Ethan e Lucas, não participaram. Eles cobriram as orelhas enquanto tocava os sons e depois recusaram cantar uma canção sobre o castelo assombrado. No fim da aula, eu os confrontei: “O que há de errado com vocês? Por que não fizeram o que eu pedi?” Ethan virou para mim e disse: “Sou cristão. Não posso ouvir isso.” Então, o garotinho começou a chorar. Lucas virou-se para mim e acenou a cabeça solenemente. Foi uma das maiores repreensões que recebi em minha vida. Deus falou comigo poderosamente através daqueles pequenos meninos. Pensei: “Por que estou ensinando às crianças sobre as coisas do diabo?”
 
Nas minhas duas semanas de férias seguintes, voltei à escola bíblica e estudamos sobre como Daniel e seus três amigos haviam proposto no coração ser fiéis a Deus diante do rei Nabucodonosor. Lembrei-me de como Ethan e Lucas mantiveram o propósito no coração deles de serem fiéis a Deus diante de mim. Deus me convenceu a abandonar meu trabalho, mas não conseguiria por minhas próprias forças. Contei meu testemunho ao professor da escola bíblica. “Você tem um testemunho poderoso”, ele disse. “Mas o problema é que não existe uma ação.”
 
Nesse mesmo período, Deus falou comigo através da minha devoção matinal. Eu li no livro de Ellen White, Parábolas de Jesus: “Quando os apelos do Espírito Santo atingirem ao coração, nossa única segurança está em a eles responder sem tardar. Quando vier o chamado: ‘Vai trabalhar hoje na Minha vinha’, não recuseis o convite. ‘Hoje, se ouvirdes a Sua voz, não endureçais o vosso coração.’ Heb. 4:7. É perigoso postergar a obediência. Podeis nunca mais ouvir o convite.” (p.281)
 
Com o coração completamente entregue a Deus, consegui escrever e entregar em mãos minha carta de demissão. Passeis os cinco meses seguintes na escola bíblica, mas uma luta interna surgiu entre minha vontade e a vontade de Deus. Meu antigo salário era bom e eu não conseguia imaginar viver sem dinheiro. Meu desejo de independência financeira foi maior e eu descobri um emprego em que o salário era ainda melhor que o anterior. Entretanto, eu precisaria trabalhar algumas vezes aos sábados.
 
Quando procurei o conselho de um pastor na escola bíblica, ele me disse corajosamente: “Você acabou de sair do seu emprego anterior e agora quer enfrentar novamente o mesmo desafio?” Não importa o tamanho da batalha, Deus é maior, e nunca permite que enfrente uma tentação que não possa superar sem Sua ajuda. No momento certo, Deus abriu uma porta inesperada e recebi o convite de ensinar no jardim da infância da Escola Missionária Internacional Adventista em Korat, Tailândia.
 
Fiquei tão surpresa com Seu amparo no momento exato! Então, lembrei-me de Suas palavras: "Pois os meus pensamentos não são os pensamentos de vocês, nem os seus caminhos são os meus caminhos", declara o Senhor. “Assim como os céus são mais altos do que a terra, também os meus caminhos são mais altos do que os seus caminhos e os meus pensamentos mais altos do que os seus pensamentos” (Isaías 55:8, 9, NVI).
 
Deus é bom. Ele respondeu às minhas orações para continuar lecionando música. Depois de dois anos como professora do jardim da infância, tornei-me diretora do departamento de música da escola missionária. Eu nunca senti tanta paz e completa alegria na vida. Deus conquistou meu coração e agora meu desejo é trazer as pessoas à beleza do Seu amor.
 
Somos gratos a você que, há três anos, ajudou a escola onde Charmaine trabalha, a Escola Missionária Internacional Adventista, a expandir para o Ensino Médio e construir um complexo de salas de aulas e outras instalações em um novo terreno em Korat, Tailândia. Hoje, arrecadaremos as ofertas do décimo terceiro sábado que ajudarão a espalhar o evangelho por toda a Divisão do Sul Ásia-Pacifico. Muito agradecemos!
 
 
 
Informações adicionais
 
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• Para outras notícias do Informativo Mundial das Missões e informações da Divisão do Pacífico Norte-Asiático, acesse: bit.ly/ssd-2022.
 
Esta história ilustra os seguintes componentes do plano estratégico do “I Will Go” [Eu irei] da Igreja Adventista: “definição através da direção do Espirito Santo.” A Escola missionária na Tailândia ilustra o objetivo missionário nº 2 – “fortalecer e diversificar o alcance dos adventistas nas grandes cidades (...) entre grupos de pessoas nãoalcançadas e para religiões não cristãs”. Saiba mais sobre esse projeto em IWillGo2020.org.
 
Comentário da Lição da Escola Sabatina – 1º trimestre de 2022
 
Tema geral: Hebreus: mensagem para os últimos dias
 
Lição 13 – 19 a 25 de março de 2022
 
Permaneça o amor fraternal
 
Autor: Adriani Milli Rodrigues
 
Editoração: André Oliveira Santos: andre.oliveira@cpb.com.br
 
Revisora: Josiéli Nóbrega
 
O capítulo 13 da Epístola aos Hebreus conclui o conteúdo da carta com inúmeros e preciosos conselhos práticos para a sua audiência. Em consonância com a impressiva organização da epístola como um todo, esses conselhos não representam um conjunto de exortações individuais distintas agrupadas de forma circunstancial. É bem verdade que a tônica desses conselhos do capítulo 13 não é exatamente a mesma das exortações anteriores, que encontramos em 2:1 a 4; capítulos 3 e 4; 5:11 a 14; 6:1 a 20; 10:19 a 39; 11; 12:1 a 27. A nota tônica dessas exortações diz respeito ao relacionamento dos crentes com Deus. Elas estimulam a abertura do coração à voz de Deus e às suas promessas, em vez da atitude de endurecer o coração pela rebelião da incredulidade. Também motivam a perseverança diante dos desafios e dificuldades, tendo em vista especialmente o exemplo de perseverança de Jesus Cristo e o fato de que as promessas divinas se cumpriram por meio Dele. O nosso Salvador Se encontra assentado à direita de Deus Pai no trono celestial e também ministra como Sumo Sacerdote no verdadeiro santuário no Céu. Assim, Jesus não apenas provê um exemplo de perseverança (cf. 12:3), mas também atua como Mediador para fortalecer e ajudar os crentes a resistir à tentação do desânimo e da apostasia diante das dificuldades encontradas (cf. 2:18).
 
Ao passo que essas exortações anteriores se concentram fortemente no relacionamento espiritual vertical, por assim dizer, dos crentes com a voz divina e o Cristo celestial, os conselhos práticos do capítulo 13 apresentam uma tônica mais horizontal. Eles destacam a postura dos crentes no relacionamento de amor fraternal com outras pessoas. Nessa tônica, o apóstolo falou de hospitalidade (v. 2), cuidado com os presos e maltratados (v. 3), fidelidade matrimonial (v. 4), contentamento material (v. 5), atenção para com os líderes da igreja (v. 7, 17), assim como a “prática do bem” e a “mútua cooperação” (v. 16). Portanto, qual seria a relação do entusiasmo com a palavra/promessas divinas e a resultante perseverança ou resiliência espiritual frente aos desafios, que representa a tônica das exortações anteriores ao capítulo 13, com as exortações de amor fraternal que se destacam nesse capítulo? Em outras palavras, como se harmonizam esses dois diferentes tipos de exortação? A resposta para essas perguntas passa por Hebreus 12:28, que representa não apenas a transição entre esses dois tipos de exortação, como também constitui a introdução teológica para os conselhos práticos de amor fraternal do capítulo 13.
 
Em realidade, o reconhecimento desse papel introdutório de 12:28 para a compreensão das orientações do capítulo 13 é fundamental tanto para a conexão com a tônica das exortações anteriores, como também para a percepção de que essas orientações finais são coesas. Isso significa que elas não são um conjunto de exortações agrupadas de maneira circunstancial mas estão inteligentemente conectadas. O verso ressalta que o recebimento do reino inabalável de Deus por parte dos crentes deve despertar gratidão. Muitos estudiosos da língua grega antiga argumentam que a expressão ech?men charin no verso 28 é uma expressão idiomática que incentiva a gratidão, como observamos, por exemplo, na tradução da NVI: “Portanto, já que estamos recebendo um Reino inabalável, sejamos agradecidos [ech?men charin] e, assim, adoremos a Deus de modo aceitável, com reverência e temor” (ênfase e expressão grega supridos).
 
Como princípio bíblico geral, e especialmente no contexto da mensagem de Hebreus, diante das dificuldades e desafios, não pode haver gratidão sem perseverança. É a perseverança da fé que não se permite sucumbir pelas impossibilidades impostas pelas lutas e problemas, pois ela enxerga o alvorecer da realidade do reino inabalável de Deus. Em meio às dificuldades, é possível observar Jesus Cristo já assentado no trono celestial. E esse senso de que o reinado de Deus é maior do que os embates sofridos não apenas neutraliza o desânimo, mas gera gratidão. Devemos nos sentir gratos a Deus, e não desanimados pelas lutas, porque Seu reino já é uma realidade a ser recebida em nossa vida. Além disso, de acordo com o verso 28, a gratidão não é meramente um sentimento abstrato, mas se expressa concretamente em termos de serviço/adoração agradável a Deus. É dentro desse quadro teológico de gratidão e serviço/adoração a Deus que devemos compreender os conselhos práticos de Hebreus 13 a respeito do amor fraternal. Mais especificamente, o amor fraternal não constitui apenas uma ação social, mas representa sobretudo uma forma de gratidão e serviço/adoração a Deus. Aqui se cruzam as chamadas dimensões vertical e horizontal da espiritualidade. Não há verticalmente gratidão a Deus, nem serviço/adoração a Ele, sem o amor fraternal no sentido horizontal.
 
Se tomarmos em consideração inicialmente as orientações sociais específicas dos versos 2 a 5 do capítulo 13, observaremos que os dois primeiros conselhos afirmam como o amor deve se comportar, ao passo que os dois últimos indicam como ele não deve se portar. No caso dos dois primeiros (v. 2-3), os crentes normalmente se esquecem disso e, por isso, precisam se lembrar da hospitalidade e dos encarcerados. Nesse sentido, o amor fraternal é constante (v. 1) quando não há esquecimento (v. 2-3). No contexto de perseguições que a audiência primária de Hebreus vivia, prisões muitas vezes se davam por conta da fé professada. Alguns estudiosos até conectam hospitalidade e prisão no sentido de que famílias dos que eram presos muitas vezes precisavam do apoio da hospitalidade. Mas deve ser lembrado que o movimento de cristãos no mundo antigo era peregrino, e esse parece ser um contexto adequado para a ênfase de acolher anjos sem saber, à luz do Antigo Testamento no final do verso 2. De forma geral, esses dois conselhos importantes demonstram que gratidão a Deus e serviço/adoração aceitável para Ele se expressam em termos de lembrança e cuidado dos que sofrem e/ou têm necessidades.
 
Por sua vez, os outros dois conselhos explicam como o amor não deve se portar (v. 4-6). O amor fraternal não deve se converter em impureza sexual e adultério. Ao conectarem essas exortações iniciais do capítulo 13, certos comentaristas bíblicos salientam que a prática da hospitalidade no mundo antigo, e também nos dias atuais, deveria e ainda deve ser cuidadosa, para que não haja infidelidade matrimonial. Ademais, o amor não deve ser pelo dinheiro (avareza). Em meio às lutas e dificuldades, é importante ter contentamento financeiro. Aliás, esse é também o princípio da fidelidade matrimonial, contentamento com o cônjuge existente. É interessante notar que contentamento é fruto de gratidão pelo que temos, ao passo que descontentamento se relaciona com ingratidão.
 
O bloco final de exortações dos versos 7 a 17 apresenta outras formas de gratidão e serviço/adoração a Deus por Seu reino. A ideia de lembrança é novamente enfatizada, dessa vez no contexto da liderança espiritual. Líderes, qualificados aqui como pregadores da Palavra de Deus, devem ser lembrados e imitados em sua fé (v. 7). Esse tipo de líder é até mesmo digno de obediência, uma vez que esses levam a sério a liderança de pessoas diante de Deus e desejam fazer isso com alegria e para o benefício de seus liderados (v. 17). Portanto, ao passo que essas exortações sejam explícitas no que diz respeito à postura dos liderados, elas também implicitamente indicam o padrão esperado de uma liderança verdadeiramente espiritual.
 
Além disso, podemos destacar a figura de Jesus nessas exortações finais. De fato, Ele é a figura central não apenas nessa seção de conselhos, mas é o centro da epístola de Hebreus como um todo. Em primeiro lugar, Sua constância (“é o mesmo ontem, hoje e para sempre”, v. 8) é a base para a constância dos crentes, que não devem se deixar levar por ventos de doutrinas estranhas (v. 9). Em segundo lugar, com base no princípio de levítico de que sacrifícios pelo pecado cujo sangue era trazido para o santuário tinham o corpo do animal destruído/queimado fora do arraial (v. 11; cf. Lv 4:12, 21; 16:27), o apóstolo comparou a ideia de estar fora do arraial com o fato de Jesus ter sido crucificado fora de Jerusalém. Isso era um sinal de vergonha e desonra. Curiosamente, os crentes que estão sofrendo são convidados retoricamente a sair também para fora da cidade/acampamento para encontrar Jesus ali, mais precisamente, no lugar da vergonha: “Saiamos, pois, a Ele, fora do acampamento, levando a mesma desonra que Ele suportou” (Hb 13:13). Finalmente, os crentes são implicitamente considerados sacerdotes, ao ser convidados a oferecer continuamente “sacrifício de louvor” a Deus e os sacrifícios de “mútua cooperação e a prática do bem” (13:15, 16). Mas é importante notar que esse implícito sacerdócio dos crentes é totalmente dependente do sacerdócio de Jesus e dele deriva, visto que os crentes oferecem esses sacrifícios “por meio de Jesus” (13:15). Assim, somos chamados a expressar amorosa gratidão a Deus que se expressa em serviço/adoração a Ele, seja na dimensão vertical ou horizontal, por meio de Jesus. Que privilégio!
 
Conheça o autor dos comentários para a Lição deste trimestre: Adriani Milli Rodrigues é o coordenador da graduação em Teologia no Centro Universitário Adventista de São Paulo. Possui doutorado (Ph.D) em Teologia Sistemática na Andrews University (EUA) e mestrado em Ciências da Religião pela Umesp. Natural do Espírito Santo, ele trabalha no Unasp desde 2007. É casado com a professora Ellen e tem uma filha, a Sarah, de 7 anos.




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