Fotografo: Divulgação
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Lara é a única das nove atletas pré-convocadas com Olimpíada no currículo

Por mais de uma vez, a capitã da seleção brasileira de nado sincronizado foi barrada pela rígida fiscalização no acesso ao Centro Aquático Maria Lenk, na Barra da Tijuca, zona oeste do Rio, onde treina de segunda a sábado, sete horas por dia.
 
O rosto ainda pouco conhecido, tal qual o esporte no Brasil, carrega, no entanto, uma missão: liderar um grupo novato em uma participação inédita como equipe nos Jogos Olímpicos do Rio.
 
Aos 28 anos e com quatro medalhas de bronze conquistadas nos Jogos Pan-Americanos de 2007, no Rio, e 2011, em Guadalajara, Lara é a única das nove atletas pré-convocadas com Olimpíada no currículo. Em 2008 (Pequim) e em 2012 (Londres), a dupla formada com Nayara Figueira alcançou a 13ª colocação na prova de dueto, mas ficou fora do grupo de 12 finalistas na briga por um lugar no pódio.
 
Dessa vez, o objetivo é colocar o Brasil, que conquistou a vaga por equipe por ser país-sede, entre os seis melhores conjuntos do mundo.
 
Para isso, de segunda a sexta, ela percorre de bicicleta as três quadras de sua casa até o local de treinamento do Time Brasil, onde serão disputadas as provas da modalidade em agosto.
 
Às 7h em ponto tem início a zala, um treino de força e resistência com alongamentos fora d'água, sob supervisão da técnica Maura Xavier.
 
"A Lara treina muito bem, ela sempre dá 100% em todos os momentos e isso se reflete na técnica dela. Eu a uso como exemplo para as outras meninas e digo: 'se todo mundo entendesse o que tem que fazer como ela, eu teria uma equipe em outro nível'", elogia a treinadora.
 
Mas é na hora de ensaiar as rotinas técnica (exige o cumprimento de movimentos obrigatórios) e livre, que essa determinação e experiência vêm à tona. Enquanto analisa as repetições da coreografia em monitor colocado à beira da piscina, a fluminense Lara Teixeira tem o olhar atento e fixo, mas o corpo faz movimentos involuntários, em um esforço contínuo de aprimorar o que vê na imagem.
 
Crítica consigo mesma e com o grupo, ela sabe que precisam trabalhar mais do que equipes favoritas, como as russas e as chinesas, para vislumbrar uma medalha.
 
"As brasileiras não se encaixam muito no padrão de corpo longilíneo, com força e flexibilidade, que é ideal para o esporte. Não é um corpo muito musculoso, mas é definido", explica.
 
Na tentativa de contornar o biótipo, Lara criou até um projeto de financiamento coletivo para contratar um treinador especialista em corridas. Em contrapartida, os apoiadores poderiam ganhar desde produtos autografados até aulas particulares. A meta foi superada em mais de mil reais, mas a satisfação maior veio de outra fonte.
 
"Foi bacana ter essa interação com os fãs. Antigamente, as pessoas não sabiam o que era nado sincronizado, e agora sabem. É um trabalho de formiguinha até o esporte ser conhecido."
 
A noção apurada de gestão é fruto da formação em administração e da pausa de dois anos na carreira de atleta, iniciada logo após a frustração dos Jogos de Londres.
 
Morando em São Paulo, trabalhou na Octagon Brasil, uma empresa de consultoria em marketing esportivo. "Naquele momento, eu não tinha mais objetivos dentro da seleção e passei a ter muitas dúvidas sobre como seria a minha vida após o esporte", lembra.
 
Quando a vontade de se apresentar em casa mais uma vez, como no Pan em 2007, falou mais alto, Lara retornou para o Rio, mas o nome já conhecido no meio e o currículo extenso não garantiram um lugar na seleção.
 
"Eu precisava entrar não como a Lara Teixeira que foi a duas edições de Olimpíada, mas como a Lara Teixeira que merecia aquela vaga", diz (ela passou por uma seletiva em outubro de 2014).
 
Em um Maria Lenk ainda fechado para o público, Lara já se prepara para dar adeus. Pretende se aposentar logo após a Olimpíada, mas não sem passar o bastão. "Eu vejo na Maria Clara (Lobo), 17, um pouco de mim quando era mais nova. Sempre falo que vou deixar com ela a responsabilidade de puxar a nova geração que está vindo aí."