Fotografo: Divulgação
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Olimpíada Rio 2016 não terá participação feminina na modalidade que é vetada para elas

 
Você, torcedor comum, aquele que na hora da Olimpíada mira nos eventos em que o Brasil tem chance de medalha sabe: o confronto contra um cubano no boxe é sinônimo de pedreira, dureza. Quase uma eliminação garantida. A ilha caribenha tem tradição, muita tradição. Coleciona medalhas e fabrica campeões a cada quatro anos. Mas agora vai uma boa notícia: na chave feminina o risco às brasileiras não existe. As cubanas não têm talento? Não gostam do esporte? Não se sabe porque ninguém as vê lutar profissionalmente. Em Cuba, mulheres não podem lutar boxe. Ordem do governo. 
 
 
"Não sabemos bem ao certo". "Não tenho resposta para isso". Como explicar a proibição de que mulheres pratiquem uma modalidade esportiva olímpica? Nem os próprios cubanos parecem saber entender, mas esta é a realidade de Cuba no boxe, que chega na Olimpíada Rio 2016 com diversos favoritos ao pódio, como Robeisy Ramirez, Julio Cesar La Cruz e Roniel Iglesias, mas sem qualquer mulher no elenco. Logo no boxe, esporte no qual o país ganhou a maior parte de suas medalhas em Jogos Olímpicos (66 no total, sendo 34 delas de ouro), abrir mão da disputa de três medalhas?. Por que, na terra de Kid Chocolate, Teófilo Stevenson, Felix Savón e tantas outras lendas, nenhuma mulher tem o direito sequer de treinar a nobre arte?
 
 
Na década de 50, Fidel Castro liderou a Revolução Cubana e derrubou o ditador Fulgencio Batista. Posteriormente, em 1962, foi quando Cuba proibiu pessoas do sexo feminino de se aventurarem no boxe. Mas experimente perguntar o motivo de, em 2016, isso ainda vigorar. Nesta quarta-feira, o GloboEsporte.com esteve no treino da seleção de boxe do país, que está no Rio de Janeiro para a disputa da Olimpíada Rio 2016 e tentou, em vão, encontrar a resposta com nomes importantes de Cuba na modalidade.
 
 
Isidoro Nicolas já foi treinador da seleção de seu país e ajudou a formar nomes como Félix Savón, que faturou três medalhas de ouro em Olimpíadas e seis títulos mundiais. Hoje, o técnico vive no Brasil e conta que a situação em sua terra-natal faz muitas mulheres treinarem o boxe de forma clandestina, apenas pela paixão que nutrem pelo esporte. Ele ainda vê algumas incoerências nessa proibição.
 
 
- É uma coisa que não sabemos bem ao certo o motivo. Ainda não desvendamos isso. Porque tem judô olímpico, luta olímpica, halterofilia, mulheres no levantamento de peso, não sei por que não botaram no boxe. É proibido. Queremos que seja liberado. Temos muitas mulheres em Cuba que são muito boas no boxe. Têm mulheres que treinam sozinha, escondidas. Não podem treinar direito em um ginásio. Mas têm mulheres. Eu vi até no Facebook uma cubana que treina muito bem o boxe. E conheço muitas que adoram boxe e estão esperando o momento para lutar - afirmou.
 
 
A opinião de Isidoro é compartilhada pelo atual campeão olímpico até 52kg e favorito ao bicampeonato, Robeisy Ramirez, que também apoia a liberação das mulheres no boxe, mas não sabe como justificar as razões de ainda não ter ocorrido.
 
 
- Não tenho resposta para isso, porque em Cuba não se pratica o Boxe feminino. Não sabemos por quê. Deveríamos, pois, como todos sabem, são três medalhas que perdemos para a equipe. Teríamos a possibilidade de terminar melhor as Olimpíadas. Mas a resposta concreta não posso te dar. 
 
 
Vale ressaltar que o boxe feminino fez sua estreia na Olimpíada há apenas quatro anos, em Londres. Na ocasião, Cuba se posicionou contra a competição entre mulheres na nobre arte. Treinador da seleção na época, Pedro Roque chegou a dizer para a rádio estatal "Radio Rebelde" que "mulheres cubanas foram feitas para mostrar sua beleza, não para receberem golpes no rosto". Em 2016, ele vai comandar o Azerbaijão nos Jogos Olímpicos e evitou comentar sobre o assunto.
 
 
- Isso está em processo, mas não estou qualificado para falar disso. Não sou a pessoa. Não trabalho nem em Cuba e, segundo, são questões que não me competem - declarou, de forma sucinta.
 
ESPERANÇA DE MUDANÇAS EM BREVE
 
Apesar do passado e presente sombrios com relação ao boxe feminino, Isidoro e Ramirez acreditam que a mudança está próxima de acontecer. Especialmente pelo fato de Cuba abrir mão de três medalhas ao manter a proibição para as mulheres, já que na Olimpíada ocorrem as competições em três categorias (até 51kg, até 60kg e até 75kg).
 
 
- As coisas estão mudando muito em Cuba. Espero que isso mude também, porque estão tirando medalha olímpica. São mais três divisões. Cuba está com 10, poderia estar com 13. Se tem 13, tem mais possibilidade que 10. Se tem 15, mais do que 13 e assim em diante. Quanto mais gente, mais possibilidade. Essa é a matemática, é a mesma em qualquer lugar - declarou Isidoro.
- Creio que no futuro, em Cuba, se praticará o boxe feminino. E não em um futuro muito tardio. Já temos mulheres praticando. Mesmo que não seja um número oficial, já temos mulheres treinando - acrescentou Ramirez.
 
 
DOCUMENTÁRIO DE 2015 CONTA HISTÓRIA DE PUGILISTA CUBANA
 
A luta pela igualdade na prática do boxe em Cuba foi tema do documentário "Boxeadora", de 2015, dirigido pela americana Meg Smaker, que conta a história de Namibia Flores, pugilista cubana de 38 anos, que treina de forma escondida e sonha participar de competições representando seu país, mas admite que, somente pelo fato de poder lutar, defenderia as cores de outra nação. A obra se aprofunda na vontade de Namibia de se tornar uma lutadora profissional e participar de uma edição dos Jogos Olímpicos.
 
 Marcelo Barone/Raphael Marinho