Fotografo: Robson Fernandjes / Agência Estado
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Suzane von Richthofen

Em novembro de 2013, Suzane von Richthofen se submeteu a uma rigorosa avaliação psicológica com o intuito de entrar para o regime semiaberto na Penitenciária de Tremembé, no interior de São Paulo. O maior desafio da detenta era o teste de Rorschach, composto de uma série de imagens abstratas nas quais o paciente dá sua interpretação sobre o que vê nelas e, assim, revela sua verdadeira personalidade.
 
Meticulosa, conseguiu uma cópia do material com um advogado para estudar e dar uma resposta que convencesse o avaliador de seu arrependimento por arquitetar o assassinato dos próprios pais. Não deu certo. Em todas as análises — repetiria o teste em 2015, 2017 e 2018 —, Suzane foi diagnosticada como uma pessoa de personalidade limítrofe e de traços narcisistas. Mesmo assim, obteve o benefício em 2015. A curiosa justificativa da juíza para a decisão: “Se a Justiça mantivesse no regime fechado todos os presos com problemas psicológicos, não haveria prisão suficiente na face da Terra”.
 
O perfil de uma assassina fria, sedutora e manipuladora é traçado em detalhes ao longo das 280 páginas de Suzane: Assassina e Manipuladora, de Ullisses Campbell. Ela e os irmãos Daniel e Cristian Cravinhos entraram para a história criminalística brasileira em 31 de outubro de 2002. Nessa data, os Cravinhos mataram a pauladas o casal Manfred e Marísia von Richthofen na mansão deles, que ficava na Zona Sul de São Paulo.
 
Suzane não apenas organizou o plano como instigou Cristian — que até então se mostrava inseguro em levar o assassinato adiante — a cumprir o acordo. Para Suzane e Daniel, que namoravam escondido dos pais dela, aquela era a única maneira de viver sua história de amor sem perder o padrão classe alta ao qual ela estava acostumada e que ele não demorou muito a se afeiçoar.
 
Os dois se conheceram quando o rapaz passou a dar aulas de aeromodelismo a Andreas, irmão mais novo de Suzane. Desde cedo a garota mostrou seus dotes de manipuladora. A princípio, tentou fisgar outro instrutor. Como o rapaz tinha namorada e não quis traí-la, Suzane investiu em Daniel. A paquera de verão, como acreditavam os Richthofen, passou para um relacionamento obsessivo, no qual Daniel chegou a se automutilar como prova de seu amor.
 
Para driblar a vigilância dos pais, contrários ao relacionamento, Suzane usou uma amiga como álibi em seus encontros e, com o objetivo de desviar a atenção em casa, até sugeriu à mãe que Manfred pudesse estar tendo um caso extraconjugal. Os pais também não amaciavam: a família era incapaz de demonstrar afeto, a ponto de Suzane se incomodar com um abraço dado por uma amiga, algo pouco comum entre os Richthofen.
 
Suzane acabou condenada a 39 anos de prisão em 2006, enquanto Daniel e Cristian pegaram 39 e 38 anos de reclusão, respectivamente. Na prisão, como revela o livro, o irmão mais velho de Daniel teve um caso com um detento ao mesmo tempo que, nos fins de semana, recebia visitas íntimas da namorada. Cristian chegou a pedir ao affair uma calcinha preta.
 
Detalhe: a peça seria utilizada por ele, e não pelo namoradinho. Suzane, por outro lado, foi ameaçada de morte por integrantes do PCC durante sua estada na prisão. Salvou-se jogando charme para o médico da cadeia. Apesar de não cair na ladainha, ele a alertou sobre uma rebelião cujo objetivo era acabar com a vida dela. Em Tremembé, para onde foi transferida em 2013, arregimentou um time de presidiárias para limpar sua cela e cuidar de seus cabelos. Suzane conseguiu ainda 120 000 reais da produção do programa do apresentador Gugu Liberato para dar uma entrevista exclusiva.
 
Uma das poucas vezes em que não teve sucesso na manipulação foi quando fez pressão sobre o irmão caçula para voltar a ter direito sobre a herança dos pais (Andreas negou o pedido, rompeu de vez a relação com ela e a conhecidos já confessou ter medo de ser assassinado por Suzane). Para se sentir segura na penitenciária, ela cedeu às investidas amorosas de uma das donas do pedaço, Sandra Regina Gomes, a Sandrão.
 
Tempos depois, descartou a namorada. Hoje, está noiva de Rogério Olberg, irmão de uma amiga detenta. Cristian foi solto em 2017 e preso no ano seguinte por tentativa de suborno de policiais e violação do regime semiaberto. Já Daniel mudou de sobrenome, casou-se e voltou a dar aulas de aeromodelismo. Suzane, que hoje é evangélica e está com 36 anos, tentou proibir a publicação do livro de Campbell — perdeu na Justiça — e vai pleitear o regime aberto neste ano. Será que ela passa no teste de Rorschach?
 
 
 
 
Publicado em VEJA de 22 de janeiro de 2020, edição nº 2670