Fotografo: Jarbas Oliveira
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Crianças e adolescentes fazem programa para comprar alimentos e usar drogas

 
Letícia, nome fictício, mora desde pequena em uma favela nos arredores do Terminal de Cargas Fernão Dias, área pobre no limite entre São Paulo e a cidade de Guarulhos. É lá que centenas de caminhoneiros de todo o Brasil costumam parar antes de seguir viagem. Em meio à miséria e degradação do bairro, a garota, com o consentimento da mãe, começou a se prostituir quando tinha apenas 9 anos de idade.
 
"Comecei a fazer isso desde os meus 9 anos. Perdi minha virgindade com 9 anos, você acredita? Minha mãe não estava me dando as coisas e eu comecei a fazer. Agora eu tenho 14 anos", diz Leticia.
 
Letícia é uma das mais de 20 menores que, todos os dias, são exploradas sexualmente nas proximidades do terminal. Realidade conhecida por quem frequenta o local. Os principais clientes são caminhoneiros que pagam em média R$ 50 pelo programa. As meninas e até meninos, entre 9 e 17 anos, circulam livremente pelos restaurantes e bares das redondezas, geralmente à noite.
 
As ofertas aos menores são feitas sempre de forma muito discreta, por meio do pagamento de uma refeição ou bebida, por exemplo. Já o crime, na maioria das vezes, é concretizado na boleia dos caminhões, em um estacionamento que fica a menos de cinco minutos do terminal.
 
"A gente faz no caminhão, lá no estacionamento, com camisinha. Às vezes a gente vai para o motel. Os caminhoneiros não ficam com medo, não. É de novinha que eles gostam", conta a menina.
 
Uma outra adolescente disse que as meninas trabalham por conta própria. Costumam usar o dinheiro para ajudar em casa, comprar alimentos e roupas. Muitas, no entanto, são viciadas em crack e acabam se prostituindo até mesmo por R$ 10.
 
"Quando ela [amiga] quer cheirar pó, cocaina, ela fica batendo de caminhão em caminhão. Aí quando um homem abre ela cobra R$ 10 para fazer sexo oral. Um monte de meninas faz isso aqui. A maioria é menor de idade", explica. 
 
A reportagem da CBN passou quase dez dias do mês de julho frequentando o Terminal de Cargas Fernão Dias. Todos os dias havia menores no local. Além de receber ofertas, a reportagem presenciou e flagrou, com imagens, o pagamento a uma das meninas.
 
O que torna a história ainda mais chocante é que o aliciamento ocorre a menos de 100 metros de uma base da Polícia Militar. Já o estacionamento, que fica em uma área de mais de 64 mil metros quadrados, é irregular. O terreno é da Prefeitura de São Paulo, foi invadido e há anos criminosos cobram dos caminhoneiros para estacionar. Um pátio gigantesco, sem iluminação ou qualquer tipo de fiscalização.
 
"Fiscalização, polícia, ninguém pega no pé da gente, porque conhecemos os caras. Usamos droga na cara dos caras, dos policiais. Normal".
 
Os caminhoneiros também alegam não saber de nada. De quatro abordagens, apenas uma confirmou que há exploração sexual infantil.
 
"Ontem à noite passou umas duas, três mulheres com shortinho aí. Passaram devagar em frente ao caminhão, olhando, vendo se o cara chama, alguma coisa. Isso era umas 23h".
 
A CBN pediu entrevistas à Secretaria de Segurança Pública do Estado e à Prefeitura de São Paulo, mas não houve retorno. Em nota, a SSP declarou que vai criar uma força-tarefa envolvendo as polícias Civil e Militar para combater a exploração sexual de menores no Terminal de Cargas Fernão Dias. A prefeitura informou que correm na Justiça duas ações para a retomada do terreno, que futuramente será usado para outros fins. Nem estado nem prefeitura responderam se sabiam das irregularidades ou o que já foi feito para coibir a prática.