Fotografo: Reprodução/TV Globo
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Adolescentes denunciam abuso sexual por supostos policiais e agentes da Supervia

Os dois jovens que denunciaram funcionários da Supervia e PMs por abuso sexual e tortura seguem bastante traumatizados, após 15 dias dos crimes cometidos.
 
Segundo as mães das vítimas, que não quiseram se identificar, os dois jovens estão com medo de saírem de casa. Um deles relatou para a mãe que sempre que vê um carro de polícia acha que vai ser parado e atacado novamente.
 
"Quando ele escuta alguma coisa de alguém ele revive tudo o que aconteceu. Tem gente que zoa e aí ele fica mais irritado. A vida dele mudou muito", contou uma das mães.
"Ele não está nem saindo de casa direito. As pessoas não entendem e mexem com ele. E por isso ele evita sair de casa. Quando ele vê um carro de polícia ele acha que vão pegar ele e fazer a mesma coisa", relatou.
 
Os dois jovens que denunciaram funcionários da Supervia por abuso sexual e tortura assinaram, nesta segunda-feira (22), um acordo de indenização com a empresa que administra o transporte ferroviário no Rio de Janeiro.
 
De acordo com a Defensoria Pública, que mediou a negociação, os menores receberão indenização, apoio psicológico e suporte profissionalizante.
 
Os valores do acordo estão protegidos por cláusula de sigilo.
 
 
Segundo a Coordenadora Cível da Defensoria, Cintia Guedes, os jovens desejam mudar de cidade e o valor da indenização seria capaz de proporcionar a mudança.
 
"Como o vídeo infelizmente circulou muito e eles se tornaram conhecidos, eles estão sofrendo muito com isso, até porque moram em uma cidade pequena. As famílias têm a vontade de sair da cidade e até de mudar de estado", disse Cintia.
 
Os valores são sigilosos, mas segundo a defensora pública, o total do acordo é maior que a média das ações na Justiça em casos como esses.
 
"A grande diferença é que em dez dias eles receberam esse dinheiro. Judicialmente eles iriam levar 15 anos", explicou.
 
Na opinião das mães dos jovens, o acordo representa um ponto final nesse crime.
 
"Estamos sim satisfeitas. Foi feito o acordo seguindo a lei e graças a Deus foi um acordo bom. Além do acordo, ofereceram tratamento psicológico e um curso profissionalizante para os meninos", disse a mãe da vítima.
 
Admitindo que o filho é dependente químico, uma das mães contou que tenta conversar com o jovem para que ele não volte a usar drogas. Para ela, a mudança e o tratamento vão conseguir resolver os problemas.
 
"Eu espero que ele ponha a cabeça no lugar e que ele venha mudar a vida dele. Infelizmente, meu filho é depende químico e eu venho lutando há cinco anos para conseguir um tratamento pra ele. Eu vou recuperar meu filho sim. Desde o ocorrido, graças Deus, eu recebi uma equipe maravilhosa aqui no Defensoria", contou a mãe.
 
Supervia pede desculpas
Durante a reunião desta segunda-feira, a direção jurídica da Supervia fez um pedido formal de desculpas para as famílias.
 
Segundo Beatriz Carvalho de Araújo Cunha, defensora pública e subcoordenadora da Coordenadoria dos Direitos da Criança e do Adolescente, o reconhecimento é fundamental.
 
 
"Isso tem um papel simbólico extremamente relevante para as famílias porque elas conseguem colocar uma pá de cal nessa situação. Mas não só para as famílias. É importante que a Supervia reconheça esse erro", disse Beatriz.
 
Ainda de acordo com a Defensoria Pública, uma ação contra o Estado do Rio de Janeiro pelo envolvimento de policiais militares no crime não está descartada.
 
"Ainda é possível que se procure o Estado para fins de reparação extrajudicial, assim como foi feito com a Supervia. Mas esse acordo de hoje foi realizado com a Supervia por um dano causado pelos agentes dela", explicou Cintia, que alertou que essa medida só será tomada se for um desejo das famílias.
 
Defensoria vai participar dos treinamentos
Uma proposta feita pela Defensoria Pública nesta reunião e aceita pela Supervia, foi para que o treinamento dos funcionários da concessionária tivesse a participação do órgão.
 
"A defensoria estabeleceu um acordo com a Supervia para participar da capacitação que os funcionários da Supervia recebem. Os agentes que atuam nas plataformas e atuam fazendo a segurança das estações recebem um treinamento periódico da Supervia. A defensoria vai auxiliar essa capacitação instruindo os agentes quanto a forma de abordagem, de forma a respeitar os direitos dos usuários do serviço e assim tentar evitar que situação semelhante volte a ocorrer", explicou Beatriz.
 
Demitidos e presos
Os dois seguranças foram identificados como Rafael Souza Marcolino e Carlos Renato da Silva Alamino. Eles foram demitidos pela Supervia após sindicância interna aberta pela empresa para apurar o caso.
 
Os dois seguranças também foram presos, juntamente com um dos PMs que participaram da ação. Os PMs identificados pelas vítimas são: Wagner Castro da Silva, lotado na Unidade de Polícia Pacificadora da Fazendinha, e Lenine Venute da Silva Júnior, do Batalhão de Choque.Os dois militares estavam de folga na corporação e cumpriam serviço para a Supervia.
 
 
Ambos já tinham sido ouvidos sobre o caso, mas negaram participação no crime. Depois, os policiais foram reconhecidos pelos ex-seguranças como coautores do abuso.
 
Os mandados de prisão temporária contra os envolvidos no caso são válidos por 30 dias. Na decisão, a juíza Maria Izabel Pena Pieranti determinou as prisões pelos crimes de estupro e publicação de imagens do abuso cometido contra as vítimas.