Fotografo: Andrew Medichini/ Associated Press/ Estadão Conteúdo
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Imprensa minimizou fala de Lula sobre o coronavírus

Uma frase de Denzel Washington define bem como anda o jornalismo dos nossos tempos: “Se você não lê os jornais é desinformado e se lê os jornais é mal informado”. Isso porque o que interessa atualmente é dar a notícia primeiro que todo mundo, mesmo que a informação não tenha sido devidamente checada. Além disso, tudo o que é bombástico é bem-vindo, ainda que destrua a reputação de muita gente.
 
Nessa corrida pela audiência vale quase tudo. Sim, quase. Não por respeito ao leitor, zelo para com a notícia ou compromisso com a verdade, mas sim, para proteger a todo custo aqueles que, por algum motivo obscuro, podem fazer o que quiserem que sempre “sairão bem na foto”.
 
E o ex-presidiário Lula – e seus satélites – é um dos protegidos por grande parte da imprensa. Seu conjunto de frases desastrosas ganharia as primeiras páginas dos jornais e as home pages dos sites de notícias caso cumprissem um único requisito: que não tivessem sido ditas por ele.
 
 
As frases infelizes do presidente Jair Bolsonaro – que também não perde a oportunidade de proferi-las – são repercutidas à exaustão e, em alguns casos, até com um certo exagero. Tudo e qualquer coisa é tratada como xenofobia, misoginia, machismo e nazismo. Ao contrário das falas de Lula, sempre minimizadas e recebidas como pérolas de bom humor.
 
O que aconteceria se a frase “Ela (Dilma Rousseff) não é nenhuma nordestina. Ela é uma mulher bem formada”, tivesse sido dita por Bolsonaro? Seria um prato cheio para uma acusação de xenofobia. Mas como saiu da boca de Lula, trata-se apenas de uma frase, e daí?
 
E se qualquer outra pessoa – que não tem passe-livre com a imprensa – tivesse dito que a cidade gaúcha de Pelotas é exportadora de veado? Homofobia, claro! Mas, não... espere! A frase foi dita por Lula, então foi apenas uma brincadeira!
 
E o que dizer do silêncio das feministas quando Lula perguntou “Cadê as mulheres de grelo duro do nosso partido? A misoginia da frase foi solenemente ignorada. Ah, gente! Não foi isso que ele quis dizer... Ele só é uma pessoa muito criativa!
 
E o que dizer da sua admiração pelo representante maior do nazismo demonstrada na frase: “O Hitler, mesmo errado, tinha aquilo que eu admiro em um homem.” Alguma comoção? Não, nenhuma. Ele apenas mencionou um líder do passado, ué! O que tem isso?
 
E, finalmente chegamos à pior frase já proferida sobre o coronavírus: “Ainda bem que a natureza, contra a vontade da humanidade, criou esse monstro chamado coronavírus.” Uma saudação clara sobre um “lado positivo” do vírus chinês que, na interpretação de Lula, foi concebido pela natureza. Um tipo de acontecimento orgânico que serve para mostrar ao mundo inteiro o quanto as pessoas devem depender do Estado.
 
Será que ele se refere àquele mesmo Estado que ele presidiu durante anos e que criou monstros chamados mensalão, petrolão e o maior esquema de corrupção da história brasileira? É desse Estado que devemos depender? Ou é do país onde até mesmo a pobreza foi erradicada, mas que só existe na cabeça desse homem que agora parece ter solução para todos os problemas do Brasil?
 
Lula até pediu desculpas, mas como todo bom “marqueteiro”, o fez exaltando a si mesmo: “a palavra desculpa foi feita pra gente usar com muita humildade”. E, de quebra, minimizou o fato, dizendo que “‘se’ algum dos 200 milhões de brasileiros ficou ofendido, peço desculpas.” Ou seja, ele é uma pessoa humilde e não ofendeu ninguém, mas “se” alguém se sentiu ofendido, não foi culpa dele.
 
Nos dias de hoje realmente temos que ter muito critério com o que lemos e ouvimos. Precisamos optar por viver na desinformação ou na má informação. Tempos difíceis.
 
Autora
 
Patricia Lages é autora de 5 best-sellers sobre finanças pessoais e empreendedorismo e do blog www.bolsablindada.com.br. É palestrante internacional e comentarista do JR Dinheiro, no Jornal da Record.