Fotografo: Reprodução
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Heloísa Wolf Bolsonaro

Jornalistas da cúpula da revista Época deixaram o Grupo Globo nesta 3ª feira, após o Conselho Editorial da empresa ter emitido nesta 2ª feira (15.set.2019) uma nota reconhecendo “erro” e “decisão editorial equivocada” pela reportagem publicada sobre a mulher do deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), Heloísa Bolsonaro.
 
A reportagem do Poder360 confirmou que os próprios jornalistas pediram demissão. Deixam a revista a diretora de Redação, Daniela Pinheiro; o redator-chefe, Plínio Fraga; e o editor Marcelo Coppola.
 
A reportagem “O coaching on-line de Heloísa Bolsonaro: as lições que podem ajudar Eduardo a ser embaixador”, escrita pelo jornalista João Paulo Saconi, foi publicada pela Época na última 6ª feira (13.set.2019). No texto, Saconi narra a experiência de vivenciar 5 sessões de coach com Heloísa via webcam.
 
 
Na nota divulgada nesta 2ª (15.set), o Conselho Editorial do Grupo Globo avaliou que o erro da Época foi “tomar Heloísa Bolsonaro como pessoa pública ao participar de seu coaching on-line”. A empresa ponderou ainda que a nora do presidente Jair Bolsonaro leva uma vida discreta e não participa de atividades públicas. “Foi um erro de interpretação que só com a repercussão negativa da reportagem se tornou evidente para a revista“, desculpou-se o Grupo Globo.
 
A nota do Conselho Editorial do Grupo Globo contradita totalmente o que a revista Época havia publicado anteriormente, em nota divulgada na última 6ª feira (13.set). A Época sustentou que a reportagem havia sido produzida com “respeito à ética e a retidão dos procedimentos jornalísticos”.
 
Eis a íntegra da nota divulgada na última 6ª feira (13.set):
 
“ÉPOCA reafirma o respeito à ética e a retidão dos procedimentos jornalísticos que sempre pautaram as publicações da revista. A reportagem em questão não recorreu a subterfúgios ou mentiras para relatar de maneira objetiva — a bem do interesse do leitor — um serviço oferecido publicamente, com cobrança de taxas divulgadas nas redes sociais“.
 
Processos na Justiça
 
Ainda na 6ª feira (13.set), quando a reportagem foi publicada, Eduardo Bolsonaro afirmou pelo Twitter que vai processar o jornalista responsável pela reportagem, e que é “quase certo” que a revista Época e o Grupo Globo também serão notificados. Ele alegou que a divulgação da reportagem é “um notório crime” contra sua família.
 
“Imaginava que poderia haver um limite entre o profissional e o pessoal. Somos inclusive muito criticados por não processar judicialmente algumas matérias da imprensa que só visam nos denegrir”, disse Eduardo.
 
Já nesta 2ª feira (15.set), o Eduardo Bolsonaro confirmou no Twitter que iria processar os mesmos jornalistas que saíram do Grupo Globo nesta 3ª feira. “Da próxima vez que a Época falar besteira tem que lembrar ‘ah, aquela revista que fez covardia com a nora do Bolsonaro’… Credibilidade zero”, disse o deputado.
 
 
Nesta 3ª feira, horas após a demissão dos jornalistas da Época ter sido noticiada, Eduardo subiu à tribuna da Câmara para protestar, mais uma vez, contra a reportagem sobre sua mulher. O deputado classificou o episódio como um “crime premeditado“.
 
Presidente não gostou
 
Em entrevista exclusiva à TV Record nesta 2ª feira (16.set), o presidente Jair Bolsonaro saiu em defesa de sua nora. “Ele gravou tudo o que aconteceu ali, que ela me disse que ele se passou por gay, inclusive, né. Falou muito da questão religiosa, de política, pra ver se exatamente ela falava algo que pudesse me comprometer. Eu não li a matéria da revista porque eu tinha outras coisas mais importantes pra fazer”, afirmou o presidente.
 
Para ele, a reportagem não é 1 trabalho que a imprensa tem que se prestar a fazer. “Quando você procura 1 psicólogo você parte do princípio, né, que você tem confiança nele e ele em você, e aquilo morre ali. Só poderia ser gravado em comum acordo entre vocês 2 e nunca para divulgação”, concluiu.
 
Eis a íntegra da nota do Grupo Globo:
 
“Como toda atividade humana, o jornalismo não é imune a erros. Os controles existem, são eficientes na maior parte das vezes, mas há casos em que uma sucessão de eventos na cadeia que vai da pauta à publicação de uma reportagem produz um equívoco.
 
Foi o que aconteceu com a reportagem “O coaching on-line de Heloisa Bolsonaro: as lições que podem ajudar Eduardo a ser embaixador”, publicada na última sexta-feira. ÉPOCA se norteia pelos Princípios Editoriais do Grupo Globo, de conhecimento dos leitores e de suas fontes desde 2011. Mas, ao decidir publicar a reportagem, a revista errou, sem dolo, na interpretação de uma série deles.
 
É certo que em sua seção II, item 2, letra “h”, está dito: “A privacidade das pessoas será respeitada, especialmente em seu lar e em seu lugar de trabalho. A menos que esteja agindo contra a lei, ninguém será obrigado a participar de reportagens”. A letra “i” da mesma seção abre a seguinte exceção: “Pessoas públicas – celebridades, artistas, políticos, autoridades religiosas, servidores públicos em cargos de direção, atletas e líderes empresariais, entre outros – por definição abdicam em larga medida de seu direito à privacidade. Além disso, aspectos de suas vidas privadas podem ser relevantes para o julgamento de suas vidas públicas e para a definição de suas personalidades e estilos de vida e, por isso, merecem atenção. Cada caso é um caso, e a decisão a respeito, como sempre, deve ser tomada após reflexão, de preferência que envolva o maior número possível de pessoas”.
 
“O erro da revista foi tomar Heloisa Bolsonaro como pessoa pública ao participar de seu coaching on-line. Heloisa leva, porém, uma vida discreta, não participa de atividades públicas e desempenha sua profissão de acordo com a lei. Não pode, portanto, ser considerada uma figura pública. F
 
oi um erro de interpretação que só com a repercussão negativa da reportagem se tornou evidente para a revista.
 
Em sua seção 1, item 1, letra “r”, os Princípios Editoriais do Grupo Globo determinam: “Quando uma decisão editorial provocar questionamentos relevantes, abrangentes e legítimos, os motivos que levaram a tal decisão devem ser esclarecidos”. E o preâmbulo da mesma seção estabelece com clareza: “Não há fórmula, e nem jamais haverá, que torne o jornalismo imune a erros. Quando eles acontecem, é obrigação do veículo corrigi-los de maneira transparente”.
 
É ao que visa esta Carta aos Leitores. Explicar o que levou à decisão editorial equivocada, reconhecer publicamente o erro e pedir desculpas a Heloisa Bolsonaro e aos leitores de ÉPOCA.”
 
ENTENDA O CASO
 
Eis 1 resumo desse caso envolvendo a revista Época:
 
reportagem controversa – Época colocou 1 repórter, sem se identificar, para acompanhar e registrar as sessões de coaching oferecidas por Heloísa Bolsonaro, mulher do deputado Eduardo Bolsonaro;
 
reação bolsonarista – o deputado, o presidente da República e muitos bolsonaristas passaram a criticar a reportagem e a atacar o Grupo Globo;
 
revista defendeu-se – Época soltou uma nota na 6ª feira (13.set) sustentando que a reportagem havia sido produzida com “respeito à ética e à retidão dos procedimentos jornalísticos”;
 
Grupo Globo desautoriza revista – ontem (2ª) o Conselho Editorial do Grupo Globo, responsável pela Época, divulgou nota reconhecendo “erro” e “decisão editorial equivocada”. Concluiu pedindo desculpas aos leitores da revista;
 
situação insustentável – desautorizados em público pelos donos do Grupo Globo, os 3 jornalistas pediram demissão.
 
Por que isso importa
 
Porque esse é o episódio que teve o resultado mais concreto e derivado diretamente da relação arestosa entre o Planalto e parte da mídia tradicional.
 
Até agora houve muita retórica. Desta vez, Época foi ao ataque prático. Bolsonaro reagiu. A direção editorial da revista acabou pedindo demissão.
 
Do ponto de vista prático, o efeito será relativamente limitado. No ano passado, Época havia se transformado em 1 encarte dos jornais Globo e Valor, ambos do Grupo Globo. Recentemente, a revista novamente passou a ser vendida separadamente. Há 1 prazo para que se viabilize financeiramente –até meados de 2020.
 
A saída dos diretores de Época pode precipitar alguma decisão mais drástica dos controladores a respeito do futuro da publicação.