Fotografo: Reuters
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Áñez entrou no Palácio Quemado, sede do governo da Bolívia, com uma Bíblia

A senadora da oposição Jeanine Áñez assumiu nesta terça-feira a presidência da Bolívia, cargo renunciado por Evo Morales no domingo, apesar de apoiadores do líder boliviano acusarem falta de quórum na sessão que alçou a parlamentar ao posto.
 
"Na ausência do presidente e do vice-presidente, como presidente do Senado, assumo imediatamente como presidente do Estado", disse Añez em uma sessão relâmpago que durou alguns minutos.
 
No primeiro discurso após assumir o cargo, a senadora afirmou que convocaria novas eleições o mais rápido possível.
 
Como segunda vice-presidente do Senado, Áñez vinha defendendo que cabe a ela assumir a presidência após as renúncias de Evo Morales e da cúpula do seu partido que ocupava cargos na linha sucessória.
 
Além de Evo, deixaram seus cargos o vice-presidente, Álvaro Garcia; a presidente do Senado, Adriana Salvatierra; o vice-presidente do Senado, Rubén Medinacelli; e o presidente da Câmara dos Deputados, Víctor Borda.
 
A Constituição da Bolívia estabelece que, na ausência de presidente e vice-presidente, o próximo na sucessão é o presidente do Senado e depois o presidente da Câmara dos Deputados.
 
A ação de Áñez foi apoiada pelo ex-presidente Carlos Mesa, oponente de Morales nas eleições de 20 de outubro; e Luis Fernando Camacho, uma das principais vozes da direita contra Morales.
 
Já Morales, asilado no México, escreveu no Twitter que, com a jogada da oposição, "foi consumado o golpe mais sorrateiro e desastroso da história".
 
"Uma senadora golpista se autoproclama presidenta do Senado e logo presidenta interina da Bolívia sem quórum no Legislativo", disse Morales.
 
O partido dele, o Movimento ao Socialismo (MAS), ocupa dois terços do Congresso — o que colocava em questão o quórum para realizar a sessão desta terça-feira, já que havia a expectativa de que parlamentares leais a Evo a boicoitassem.
 
De fato, a maioria dos membros do partido na assembleia ignorou a convocação para a sessão, muitos classificando-a como ilegítima.
 
Mas em poucos minutos, os partidos de oposição tomaram seus assentos e empossaram Áñez, justificando a ação com um comunicado desta terça-feira do Tribunal Constitucional — que conclamou uma "imediata" sucessão constitucional, sem necessidade de deliberações do Legislativo.
 
O tribunal citou uma jurisprudência de 2001 segundo a qual "o funcionamento do Executivo de forma regular não deve ser suspenso" e afirmou que o momento atual é de "grave situação social e política" no país.
 
Áñez imediatamente se mudou para o Palácio Quemado, sede do Executivo a poucos metros do prédio do Legislativo, onde entrou segurando uma Bíblia e cantando o hino nacional.
 
A Bolívia vive em profunda crise política desde as eleições de 20 de outubro, cuja idoneidade virou estopim para disputas na política e nas ruas — autoridades registram pelo menos sete mortos e centenas de feridos em protestos pelo país.
 
Morales, que chegou ao México na terça-feira, renunciou no domingo após "sugestão" do alto comando militar e de "irregularidades" detectadas pela Organização dos Estados Americanos (OEA) nas eleições de outubro.